O COLUNISTA DIZ...

Greice Franco

Pedagoga e vice-presidente do Movimento Socialista de Cultura Darcy Ribeiro de Caxias do Sul (RS).

A necessidade de um feminismo latino-americano nacionalista, anticolonialista e pautado pela classe e etnia

 

Há, hoje, uma grande popularidade de um feminismo sendo citado, por algumas autoras, como um momento de um feminismo ‘POP’, onde é facilmente visto em televisão, revistas e artistas. É a defesa por uma igualdade profissional, liberação do corpo e de direitos.

O feminismo, desde seu início, é um movimento que contribuiu para a transformação política e social. Tivemos o sufrágio feminino, a luta pelo direito ao voto, especificamente no Brasil, com Bertha Lutz, pioneira do feminismo brasileiro.

Depois, tivemos a luta pela liberação feminina e, após isso, a defesa de um feminismo como caráter politico, até chegar ao momento da luta por direitos a posição política, espaços no ambiente político, a luta por mulheres com direitos e salários igualitários e fim da violência contra a mulher.

Dispusemos do feminismo liberal e socialista, que contribuíram, em seus contextos históricos, para a transformação da questão da mulher em sociedade.

A feminista Heleieth Saffioti, em depoimento para o livro “A Revolução das Mulheres”, fala sobre o significado dos movimentos feministas: “Os movimentos feministas só são o que são hoje porque foram o que foram no passado. Hoje nós podemos questionar as bases do pensamento ocidental porque houve um grupo de mulheres que queimou sutiãs em praças públicas. O sutiã simbolizava uma prisão, uma camisa- de – força, a organização social que enquadra a mulher de uma maneira e o homem de outra. A simbologia é essa: vamos queimar a camisa-de-força da organização social que aprisiona a mulher (SAFFIOTI, 2007: página 22).

No entanto, o movimento feminista, após as três ondas, atualmente, no Brasil, assume um caráter liberal. A mulher, nos dias de hoje, está no mercado profissional, mas verifica-se que ganham até 30% a menos que homens exercendo a mesma função, e até pela jornada dupla de trabalho, tendo seu cargo profissional e também responsável, quase exclusivamente, pelos serviços domésticos (IBGE).

A questão a qual devemos nos questionar é: o feminismo que defende as pautas individuais, a igualdade numa sociedade extremamente explorada, colonizada, severamente dividida entre classes e construída com sangue negro e indígena, hoje, está contribuindo para a transformação social? É um feminismo que representa todas as mulheres?

É necessário que se compreenda a materialidade de cada povo, a situação das mulheres de cada povo, com recorte de classe e de etnia.

Mesmo que o movimento feminista do Brasil seja considerado o mais organizado do mundo, devemos olhar e nos questionar sempre. Esse modelo, hoje, de um feminismo liberal, provindo de um contexto dos norte americanos, nos representa?

Há movimentos antissistêmicos que crescem na América do Sul, fato que devemos nos atentar. Precisamos olhar para nossas irmãs da América Latina e, dessa forma, poder aprender também com suas experiências.

Os movimentos antissistêmicos são movimentos sociais e socialistas somados a movimentos de liberação nacional, nacionalistas e anticolonialistas. O feminismo andino caminha junto com o nacionalismo, pois as mulheres compreenderam que só é possível libertação com a libertação das nações de seus escravagistas, exploradores e colonizadores.

“O feminismo praticado pelas minorias andinas é o feminismo de mulheres que, pela pobreza imposta primeiramente pela colonização e depois pelo sistema neoliberal, com cortes de benefícios sociais e retirada de suas terras, se viram obrigadas a trabalhar em dupla jornada, como mencionado, dentro de um sistema patriarcal. Muitas mulheres, lideranças destes movimentos emancipatórios andinos, organizam, cuidam de questões logísticas, lideram grupos, mas raramente são lembradas em alguma conquista popular” (PAIVA, 2007).

As feministas andinas buscam primeiro a libertação de seu povo, pois não querem depender de relações econômicas que retiram suas terras, direitos, que é característica do capitalismo neoliberal.

O feminismo andino, ou seja, um feminismo nacionalista, anticolonalista, anti-imperialista, só não se solidifica e cresce mais pois há uma imposição de um feminismo liberal na América.

O fato de nós, mulheres da América Latina, do Brasil, não termos um feminismo próprio de nosso povo tem como consequência a cooptação de um movimento, que seria por libertação e emancipação, para simplesmente um que ajuda a manter o status quo, o sistema que a oprime.

O movimento feminista da Argentina é fundamental ser estudado por nós brasileiras, assim como perceber as diferenças entre o brasileiro dos feminismos norte-americano, cubano – o qual mulheres colocavam metralhadoras ao alto.

A Argentina foi pioneira, na América Latina, em lutar pelos direitos das mulheres: o movimento das mulheres argentinas começou no final do século XIX.

“Todas as mulheres de vinte e cinco anos que completaram cursos na Universidade entre 1905 e 1910 exerciam a profissão, apoiavam fortemente o avanço social e econômico para as mulheres. Entre 1910 a meados de 1950 o sistema educacional da Argentina foi considerado o melhor da América Latina, e foi percebido como sendo “moralmente e financeiramente comprometidos com a educação das mulheres”.

Devido a todo esse avanço social e econômico que a Argentina passa de 1910 até a metade da década de 90, principalmente o avanço na aérea da educação, proporcionou as mulheres a ficarem mais cientes de seus direitos e deveres na sociedade, e talvez por isso que o surgimento de uma forte figura feminina na Argentina conhecida mundialmente, Eva Perón, mais conhecida pelos argentinos como Evita, pareceu tão atrativa para a classe feminina trabalhadora” (CARLSON, 1988).

Pelo fato de não ter nascido na classe alta, Eva foi muitas vezes menosprezada pelas mulheres da oligarquia, principalmente as que faziam parte das altas sociedades beneficentes argentina. Mas mesmo assim Evita conseguiu conquistar não só a massa feminina, como todo um povo, e sua influência é considerada decisiva na vida política argentina. (NAVARO, 1980, p.109).

“Eva começou sua relação com o povo argentino resolvendo disputas de trabalho, ajudando os trabalhadores a conseguir melhores pagamentos, mas principalmente tentando escutar essas pessoas e seus desejos. Eva teve intensa participação política, e mesmo depois de sua morte é lembrada pelo povo argentino e internacionalmente. Eva sentia se como uma ponte, que aproximava Perón das pessoas: “Minha missão aqui é transmitir a Perón as preocupações e problemas do povo da Argentina” (NAVARO, 1996 p. 83).

Como demonstrado nesse artigo resumido, as lutas das mulheres latinas precisam de compreensão em diferenciação das mulheres norte-americanas e europeias. O feminismo latino-americano não pode ser somente contra a opressão do sistema patriarcal, mas, principalmente, contra a opressão do sistema capitalista, do neoliberalismo e a exploração ocidental sobre seu povo e sua cultura, pois a mulher latina tem uma maior marginalização além da questão de gênero.

Portanto, necessita-se de um feminismo próprio para que seja possível construir e massificar o nacionalismo pela soberania nacional, o fortalecimento da conscientização e o fim da exploração imperialista que coloca o povo e as mulheres de joelhos.

 

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