O COLUNISTA DIZ...

Thiago Veras

Estudante de Direito e coordenador do Núcleo Cazuza, do PDT do Rio de Janeiro.

Coragem e transgressão marcaram Rogéria e Brizola

Atriz, vedete, maquiadora, modelo, jurada e cantora. Essa foi a monumental e sempre diversificada carreira de trabalho da brilhante artista brasileira, Rogéria.

Desde a infância, ela e sua mãe já vislumbravam uma carreira de muito sucesso, pautada na valorização da cultura nacional e na ruptura com os modelos de gênero e sexualidade impostos até então. Seu primeiro trabalho no mundo das artes foi como maquiadora da grande cantora – e sua eterna fonte de inspiração – da Era do Rádio, Emilinha Borba.

Esses traços distintivos de sua personalidade – a coragem e o pioneirismo – foram o alicerce de uma trajetória na qual nunca capitulou. Nunca deixou de ser quem era, mesmo diante das adversidades e violações aos Direitos Humanos, durante os anos de chumbo da Ditadura Civil-Militar, impostas com maior rigor aos homossexuais. Nesse período empenhou seu primeiro trabalho como atriz, em 1964, mas sua personalidade e paixão pelo povo brasileiro jamais conseguiram ser calados. Personalidade forte e amor pelo povo, qualidades personalíssimas de nosso grande líder Leonel Brizola. Cada um à sua maneira, enfrentou lutas essenciais para o povo brasileiro.

Já na década de 1970, o amor pelo Brasil rendeu-lhes momentos históricos especiais: Rogéria foi coroada com o título de “Travesti da Família Brasileira”, alcançando inédito e robusto reconhecimento popular; enquanto Brizola, no exílio, e com todo respaldo da sociedade brasileira, articulava a Lei da Anistia no Brasil e a refundação do Trabalhismo.

Em mais uma atitude transgressora e de profunda inovação, Brizola clamava pela necessidade de empoderar todas as representatividades de setores da sociedade, independentemente de orientação sexual, gênero, classe social ou cor, o que levou à filiação de Rogéria ao PDT, na década de 1980, protagonizando, assim, um dos momentos mais relevantes da história do trabalhismo no Brasil.

O casamento entre Rogéria e o PDT foi, inclusive, de proximidade física. Palco de grandes apresentações da artista e de seu velório, hoje, dia 5 de setembro, o Teatro João Caetano, no Centro do Rio de Janeiro, é localizado exatamente ao lado da sede da Fundação Leonel Brizola Alberto Pasqualini (FLB-AP).

O compromisso de Leonel Brizola sempre foi com o povo mais pobre, e, consequentemente, mais oprimido. Nossa querida Rogéria conquistou o respeito de todo povo brasileiro através do seu trabalho, da sua arte, de fluída identidade, ora Astolfo, ora Rogéria, e não deixando jamais de ser aplaudida de pé e amada pelo povo.

No país em que a expectativa de vida dos transexuais beira os pífios – e absurdos – 35 anos de idade, o legado que Rogéria nos deixa é o de ter vivido uma vida de liberdade, rompendo trincheiras, nunca tendo vivido em armários, sendo nosso dever lutar pela derrubada de cada armário ideológico, que tenta nos aprisionar, subjugar e inviabilizar a busca pela felicidade.

Rogéria eterna, presente!

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