O COLUNISTA DIZ...

Lucas Ferreira

Professor do Departamento de Geografia da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e vice-presidente da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLP-AP) no estado.

Ciro Gomes e a Frente Ampla

Embora a desvalorização cambial dos últimos momentos do governo Dilma e a leve alta de algumas commodities sigam funcionando como elementos geradores de certo dinamismo, o golpe de Estado conduzido por Michel Temer, Henrique Meirelles e Eduardo Cunha não tem apresentado capacidade de gerar melhores perspectivas econômicas e políticas.

Pelo contrário, a redução dos investimentos públicos, altas taxas de juros, reforma trabalhista corrosiva do consumo e ações desvairadas do poder judicial, que colocaram sob investigação parcela do capitalismo brasileiro, estão obstruindo nossa recuperação econômica, em trágico cenário composto por cerca de 13 milhões de desempregados e exorbitante volume de recursos sendo dragado pela dívida pública.

Não bastassem os escandalosos esquemas de corrupção envolvendo quadros, sobretudo do PMDB, segue em curso a perigosa espetacularização midiática desmoralizadora da política, como se fosse possível a existência democrática sem a constante reorganização de entendimentos entre os atores responsáveis por determinar os destinos da nação.

O desgaste dos grandes partidos e o ódio ultraconservador instalado na sociedade brasileira têm projetado o instável e despreparado Jair Bolsonaro (PSC) nas pesquisas eleitorais e solapando, ao menos conjunturalmente, até mesmo o tucano governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), mais legítimo representante do establishment brasileiro, bem como sua versão verde, Marina Itaú Silva (REDE).

Apesar de tudo, importa destacar que o brutal derretimento da dignidade tem minimizado os efeitos das investidas judiciais e midiáticas contra o presidente Lula, que, do seu lado, tem os resultados sociais do grande portfólio de políticas públicas de seu governo. O líder operário, com o conjunto de sua história, tem um impacto na subjetividade nacional muito superior inclusive ao do próprio PT.

Considerando a alta probabilidade de condenação de Lula no Tribunal Regional Federal da 4 Região (TRF-4), os problemas que se avizinham são o de instabilidades por conta de condenações de quadros do PT que possam vir a substituí-lo (Jaques Wagner, Gleisi Hoffmann, etc.) e também a limitada capacidade eleitoral de figuras qualificadas como Manuela D’Ávila (PCdoB), Fernando Haddad (PT) e Guilherme Boulos.

O que as mais recentes pesquisas têm apontado é a possibilidade do ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT), ser o principal quadro de centro-esquerda capaz de receber os votos do lulismo, tendo a seu favor a mística de Getúlio Vargas e Leonel Brizola e a boa capilarização pedetista, que já possui mais prefeituras sob seu comando do que o próprio PT.

Ciro, intelectual e politicamente preparado, está fazendo duro discurso contra o pacto rentista estabelecido pelo Plano Real em 1994, o que o torna, ao mesmo tempo, alvo de poderosas corporações nacionais e estrangeiras e esperança para que façamos, em definitivo, uma transição do neoliberalismo a um novo projeto nacional de desenvolvimento.

Que as forças progressistas brasileiras, com especial destaque para PT, PDT, PCdoB e PSB, compreendam a gravidade do cenário colocado e tenham capacidade de gerar convergência em torno de uma frente ampla.

O momento é grave, não temos opção que não seguir para quebrar ou sermos quebrados!

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