O COLUNISTA DIZ...

Lucas Ferreira

Professor do Departamento de Geografia da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e vice-presidente da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLP-AP) no estado.

“Para além do Mecanismo”, por Lucas Ferreira

O lançamento de “O mecanismo”, série da Netflix concebida por José Padilha e Elena Soárez, gerou algumas das maiores polêmicas das últimas semanas, incluindo elogios de Marina Silva e duros ataques de Dilma Rousseff. Inspirada em fatos recentes da política nacional, com destaque para a Operação Lava-Jato, a série buscou explicitar o funcionamento das relações entre agentes públicos e empresários ávidos por privilégios.

Para além da questão estética que exige profissional qualificado para realizar as devidas críticas, acredito que a produção em relevo deva ser observada com grande cautela pelo público, uma vez que devemos evitar as diversas simplificações grosseiras da realidade difundidas aos quatro ventos.

Em primeiro lugar, vale destacar que a corrupção é um fenômeno muito antigo e esteve presente nas mais diversas formações sociais (Império Romano, EUA, URSS, etc.). Sua chegada ao Brasil está intimamente ligada à transladação do feudalismo português no século XVI e sua exacerbação no tempo presente decorre da combinação de velhas superestruturas com a moderna economia. A inerência da corrupção às sociedades de classe fez com que o filósofo K. Marx apontasse o Estado como um balcão de negócios de uns poucos para dominar grandes massas.

Em segundo lugar, é importante evitarmos certas seletividades em nosso pensamento. Embora o mecanismo de acumulação do “Clube de Construtoras” seja questionável, não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar que seu bloqueio seja produto de meros espíritos voluntariosos. A tomada de mercados por empresas brasileiras nas últimas décadas juntamente com iniciativas de autodeterminação nacional (UNASUL, BRICS, etc.) e possibilidades de ruptura do tripé macroeconômico na crise das commodities engendraram forte reação de mecanismos maiores sequer mencionados na série da Netflix.

Um grande conluio dirigido do exterior foi estabelecido para desarticular setores dinâmicos da economia brasileira (agronegócio, construção pesada, petroquímica, etc.) e provocou o desmantelamento de milhões de postos de trabalho. Muitos integrantes do Poder Judiciário e da Polícia Federal, mais do que vítimas mal remuneradas ou espíritos voluntariosos, mantiveram-se ligados a outros mecanismos. Isso para não mencionar os magnatas do ramo especulativo que drenam metade da renda nacional via esquema da dívida pública, esvaziando os recursos da educação, saúde e segurança enquanto ofertam aulas e bolsas a seus postulantes a “novos políticos”.

Ocorre que grupos sociais eivados de contradições estão em conflito e, para o bem da nação, espera-se que quem trabalha e produz prevaleça sobre a especulação e o estrangeiro. A grande verdade é que “O Mecanismo” faz parte de um mecanismo muito maior.

Lucas dos Santos Ferreira é professor do Departamento de Geografia da UDESC e vice-presidente da Fundação em Santa Catarina.

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