O COLUNISTA DIZ...

Carlos Michiles

Ph. D em Ciência Politica pela University of Manchester, England. Consultor e funcionário do CNPq. Nasceu em Manaus - AM. Oriundo dos anos 70 da geração iracunda da Universidade de Brasília, UnB.

Brizola, uma planta do deserto

Com uma personalidade muito forte, forjada desde sua pobre e combativa infância, Brizola aprendeu, desde os seus primeiros anos de vida, a ver na vida uma luta constante. Porque é preferível morrer lutando – como herança da ancestralidade de seu pai que morreu lutando – do que morrer sem razão para viver.

Com apenas um ano e meio, foi, no colo de sua mãe, reconhecer o corpo de seu pai assassinado. Como adulto, rejeitou qualquer forma de vingança que aprendeu com a educação recebida de sua mãe. Quando se tornou deputado estadual ou governador do Rio Grande do Sul, nunca passou pela sua cabeça a vingança pelo assassinato de seu pai, que morreu na luta de um líder maragato. Apenas buscou encontrar o mandante da morte de seu pai para recuperar a arma que seu pai portava quando foi assassinado. Gesto sublime para um homem que reconhecia, na consciência do conhecimento, a ferramenta principal da sensatez humana.

Desde essa época, Brizola conhece Julio de Castilho, um intelectual de formação positivista com quem descobriu o valor essencial do conhecimento científico  como meio para atingir a verdade.

Por causa de sua vida, se considerava uma planta do deserto. Podia renascer apenas com uma gota de orvalho. Poderia vir uma avalanche de lama que não o levava, pois considerava que tinha raízes fincadas na profundeza da história.

Aos 23 anos, Brizola entra na Faculdade de Engenharia do Rio Grande do Sul. Neste momento, começa seu envolvimento político, que logo foi visto e identificado por Getúlio Vargas, presente num dos eventos políticos da época e logo viu, naquele jovem, uma liderança promissora.

Em 1946, Brizola se elegeu deputado estadual com o apoio de Getúlio Vargas. De 1958 a 1962, se tornou governador do estado do Rio Grande do Sul e realizou a grande razão e sentido de sua vida: a educação. Assim, com este pensamento fixo de estadista, constrói 5.958 escolas primárias. Ao fim de seu governo, acaba com o analfabetismo no estado.

Por causa dessa sua visão antecipadora de sua gestão publica na área de educação, hoje, o estado gaúcho, junto com Brasília, exibe os melhores índices de leitores do Brasil. Brasília, claro, por outras razões que não cabe aqui.

Diga-se que Brizola foi o único brasileiro a renascer, mesmo depois de mais de uma década de exílio, a governar dois estados da Federação. Em 1959, o Rio Grande do Sul e, em 1982 e 1990, o Rio de Janeiro, onde continuou sua saga de construir escolas para não desperdiçar recursos públicos em prisões. Ele costumava dizer que não haveria limites de orçamento para a educação. Como gestor, gastava mais de 50 por cento do orçamento em educação.

Como governador carioca construiu 500 CIEPs. E o primeiro inaugurado recebeu o nome de Tancredo Neves, em homenagem à sua história ao lado de Getúlio Vargas. Um simbolismo mais que merecido por ter sido, pois Tancredo foi ministro trabalhista leal ao presidente.

Brizola, como uma planta do deserto, se torna uma personalidade política longeva na história brasileira. Sempre se renovando e renascendo com o uso da palavra. É seu recurso para dizer suas profecias humanas com sentido político de líderes com visão de estadista.

Como uma das funções da história é também refletir sobre as possibilidades de como seria caso determinadas lutas políticas resultassem em êxito, podemos fazer um exercício de reflexão da filosofia desse processo.

É o caso de pensar em três momentos que Brizola protagonizou.

Em 1961, com sua campanha pela legalidade que garantiu a João Goulart, seu cunhado, assumir a presidência da República como resultado da renúncia de Jânio Quadros. Neste caso, mudou a configuração política a favor da história constitucional mas cercado de hienas políticas.

Em 1964, tentou resistir ao movimento militar que João Goulart não concordou para evitar o que considerava sacrifício de vidas. Naquele ambiente hostil da Guerra Fria, um confronto poderia levar à irracionalidade do ódio de interesses internacionais, surdos ao diálogo.

Fato que levou ao rompimento dos dois políticos que ficaram sem se falar por 10 anos. Só depois desse tempo, Jango, irmão querido de dona Neuza, esposa de Brizola e sua grande companheira, o procurou no exílio uruguaio num encontro emocionante e memorável.

1989 é outra data que devemos reconhecer como o ano que poderia ter realizado aquilo que o filósofo alemão Hegel chama do “espírito da época”. Brizola era o espírito daquela época. O momento adequado para o epílogo de seu destino.

Quando Brizola se tornou governador pela primeira vez do estado do Rio de Janeiro, ele organizou o maior comício das Diretas Já. O governador mobilizou mais de um milhão de pessoas no icônico comício da Candelária. Cinco anos depois, concorre na primeira eleição direta para presidência da República, depois de 21 anos de regime militar autoritário.

Esta seria a hora e a vez de Brizola. O tempo da história o amadureceu para ser a combinação de seu destino. Parecia que todos os grandes pensadores que produziram o conhecimento da educação como emancipação da ignorância que obstrui a liberdade do ser humano, incluindo Rousseau, Kant, Hegel, Júlio de Castilho e Alberto Pasqualini, o aplaudiam.

É chegado o tempo de Brizola. O tempo adequado da planta do deserto completar o seu desabrochar.

Brizola, como um sempre constante trabalhista, seguiu sendo um alvo dos preconceitos da esquerda e da direita que se juntaram numa conspiração midiática e na manipulação eleitoral satânica para impedi-lo de chegar à presidência e cumprir com seu destino. Buscava coloca a educação de qualidade em tempo integral, que faria o Brasil, de hoje, ser o que poderia ter sido. Não foi bem diferente do que é hoje.

Mesmo sabendo que Brizola não gostava de cultuar sua imagem ou seu passado porque queria mesmo era transformar as condições atuais do presente, é preciso lembrar os bons exemplos para que não percamos a dignidade de alimentar a esperança, no Brasil.

Plantas, assim fazem, muita falta hoje.

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