O COLUNISTA DIZ...

Carlos Michiles

Ph. D em Ciência Politica pela University of Manchester, England. Consultor e funcionário do CNPq. Nasceu em Manaus - AM. Oriundo dos anos 70 da geração iracunda da Universidade de Brasília, UnB.

Quando Brizola chorou

 

“A nossa revolução será com a caneta a serviço da consciência brasileira.” Leonel Brizola

A história que embasa o pensamento trabalhista de Leonel Brizola é a substância que causou seu choro quando perdeu a sigla do PTB e fundou o PDT.

Logo depois de promulgada a Lei da Anistia, em agosto de 1979, Brizola retorna ao país com a perspectiva de retomar o fio dessa história. Antes, em junho 1979, Brizola ciente da responsabilidade política que o aguardava, realizou em Lisboa um seminário com antigos trabalhistas com Darcy Ribeiro, Doutel de Andrade e outras figuras políticas que se encontravam no exílio. Este seminário produziu um documento registrando as deliberações desse encontro, que se transformou num marco histórico da memória trabalhista conhecida como Carta de Lisboa.

Depois que chegou ao Brasil, Brizola se dedicou inteiramente a missão de retomar a história e a reorganização dos trabalhistas brasileiros em torno da legenda do PTB. Mas ele sabia que mesmo o regime militar vivendo seus últimos estertores não encontraria facilidade para retomar este fio da história porque seus adversários, capitaneados pela força estratégica do mago general Golbery do Couto e Silva sabiam que esta sigla em suas mãos ganharia uma força política eleitoral que o faria o próximo presidente eleito da república. Sabiam que Brizola era o legítimo herdeiro político de Getulio Vargas e seu legado trabalhista.

Para impedir que isso acontecesse, o poder dominante à época moveu montanhas para impedi-lo de chegar à presidência. Brizola como Presidente era algo factível eleitoralmente, mas intragável para alguns setores que temiam sua condição de líder de massa. Nesse ambiente a figura de Luis Inácio Lula da Silva como líder sindical em ascensão aparecia como uma peça adequada na estratégia em usar todos os recursos para frustrar os planos do governador Brizola.  O plano era entregar a legenda do PTB a Ivete Vargas cujo marido, Paulo Pimentel, trabalhava para o general Golbery. A própria Ivete Vargas contara tempo depois que participou de reunião na chácara de Golbery que falou de seu objetivo em projetar a figura do sindicalista Lula para ser o anti Brizola. Para isso orientou tolerância política com as reivindicações operárias do ABC paulista, conduzida por Lula a fim de robustecer um sindicalismo sem compromisso com o trabalhismo e desvinculado de Brizola.

Nessa época o preconceito e a discriminação corriam soltos em relação às pessoas que identificavam com o trabalhismo e com Brizola. Éramos poucos em 1979.  Nossas reuniões e encontros aconteciam numa pequena sala alugada com ajuda dos participantes como Michel, Timm, eu e outros pioneiros do movimento trabalhista em Brasília.

Na iminência de ser aprovada a legenda do PTB pelo TSE em torno da qual acontecia uma disputa acirrada entre Brizola e a desconhecida deputada Ivete Vargas que fora utilizada como uma peça na estratégia contra os trabalhistas, Brizola resolveu vir pessoalmente para Brasília, hospedou-se no apartamento funcional do deputado Getulio Dias onde aconteceu uma reunião para organizar uma vigília no prédio do TSE para garantir a primeira inscrição junto ao protocolo do Tribunal.

Com poucas pessoas disponíveis para passar a noite e a madrugada nos pilotis do prédio do TSE, Brizola disse que dormiria, nem que fosse sozinho para ser o primeiro a protocolar o pedido de inscrição da legenda. Não foi preciso. Entre os poucos participantes que estavam naquele momento com Brizola, se encontrava o Raimundo Correia, negão alto e forte, amigo militante que logo se prontificou a ficar no relento da madrugada para no dia seguinte abrir a seção do protocolo.

No primeiro minuto em que abriu o protocolo lá estava o Raimundo. Mas o funcionário lhe comunicou que a inscrição não seria feito no protocolo, mas direto no gabinete do presidente do Tribunal. Manobra como último recurso arbitrário para impedir que a legenda do PTB ficasse com Brizola. Raimundo correu no gabinete e encontrou a figura frívola de Ivete Vargas esperando para ser a primeira. Raimundo esbarrou nela, ela tropeçou e caiu, tirando-a do caminho e se colocou como o primeiro a protocolar o pedido de inscrição. Não adiantou, perdemos a legenda. Estava tudo combinado.

Realizado a manobra do calculista Golbery, chamado pelo brizolista Glauber Rocha, como gênio, Brizola foi mais uma vez vítima do casuísmo e perdeu a sigla do PTB.

Nesse dia Brizola chorou.  Depois de 15 anos de exílio e 14 dias depois de perder a sigla do PTB, Brizola criou o PDT- Partido Democrático Trabalhista.

Uma cena que a história lembra quando Brizola chorou. O choro de um líder que não se abateu. Chorando, Brizola disse:

–  O embuste está consumado!

E o poeta Carlos Drumond viu a cena e escreveu:

– Vi um homem rasgar o papel em que estavam escritas as três letras que ele tanto amava. Como já vi amantes rasgarem retratos de suas amadas  na impossibilidade de rasgarem as próprias amadas.

 

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