26 APR 17

Paradoxo Brasil: dívida versus povo

Imagine um país muito rico, com várias reservas minerais, uns dos maiores produtores de petróleo do mundo, maior reserva hídrica do planeta, com a energia elétrica mais módica do mundo (que é o motor para o desenvolvimento). Um país onde tudo que se planta dá! Imagine que esse país abasteça parte importante da população mundial com sua agricultura e sua pecuária.

Dono da agricultura mais competitiva do planeta, líder mundial em exportação de carne bovina e de frango e 4° em carne suína. Esse país maravilhoso chegou a ser a sexta potência econômica, em 2011. Sem ser detentor de alta tecnologia ou invadir países em busca de petróleo, conseguiu tal feito apenas avalizado pelo seu potencial inato de ser grande, rico e diverso. Imaginou? Agora, imagine que esse mesmo país é um dos mais desiguais do planeta, com umas das maiores taxa de violência do mundo, com a quarta maior população carcerária e mais de 35 milhões dos seus habitantes sem ter acesso a saneamento básico.

Nesse país, paga-se aos trabalhadores salários menores do que se paga na China, cobra mais impostos de pobres e da classe média do que de ricos e super-ricos. E não é só isso: as empresas multinacionais enviam os lucros das filiais para as suas matrizes nos países de origem e não se taxa essa remessa bilionária de dinheiro – só Brasil e Estônia fazem isso.

Os muito ricos, nesse mesmo país, que ganham em torno de R$ 2,800 milhões por ano, pagam 4,5% de imposto de renda, enquanto a classe média paga 27,5%. Nesse país controverso, os bancos comandam a política econômica. São as instituições financeiras que ditam como o governo deve ou pode gastar, além de definir as prioridades. Nesse país, desde a década de 70, vem crescendo uma dívida com os bancos internacionais cujo o montante é impagável e sobre a qual se paga juros. Só que não é um “juros” qualquer, é o maior juros do mundo! Que é definido pelos “mesmos bancos que detém os títulos dessa dívida”.

Essa dívida só cresce, independente de quanto se pague. De modo que, no ano de 2015, esse país arrecadou cerca de R$2.268 trilhões – o chamado Produto Interno Bruto (PIB) que é todo o volume de dinheiro que o país produz e arrecada, mas pagou de juros da dívida , 42,43% desse montante. Já para saúde, restou 4,14%; educação, 3,91%; saneamento, 0,01%; ciência e tecnologia, 0,27%; transferência a estados e municípios, 8,96%.

O maior programa de distribuição de renda da história, o Bolsa Família, que não resolve o problema da desigualdade e da falta de oportunidades, mas garante (ou tenta) pelo menos as 3 refeições diárias, mesmo que precária, dos mais pobres, consumiu, em 2015, aproximadamente R$ 27 bilhões e atendeu 14 milhões de famílias, enquanto essa mesma pátria amada pagou mais R$962 bilhões de juros para bancos que beneficiam cerca de 10 mil famílias detentoras dos títulos da dívida.

Portanto, é necessário que o brasileiro entenda que no seu país não falta dinheiro, do mesmo modo que não falta chuva no planeta, ela apenas é mal distribuída, a maior parte dela cai nos oceanos, no caso do Brasil, o dinheiro excedente pinga na conta dos abastados, e de vez em quanto, deixam respingar um pouco para os miseráveis.

Emerson Fonseca

Membro da FLB, integrante do Núcleo Mineiro da Auditoria Cidadã da Dívida, Biólogo, mestre em Bioquímica, doutorando em Inovação Tecnológica e Biofarmacêutica pela UFMG, pesquisador bolsista do Dep. de Física da UFMG.

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