30 MAY 17

O dilema entre agregação e cooptação de lideranças

Inicialmente, é importante enfatizar o caráter de autocrítica que será atribuído ao pretenso caminho a ser trilhado por nosso partido. A crítica aqui serve para ligar o alerta vermelho e evitar que este siga os exemplos de outros partidos e rume a uma rápida ascensão sequenciada por dura decadência.

O Partido dos Trabalhadores, que pretensamente reivindicou durante algumas décadas a representação do trabalhismo democrático, enfrenta, nos últimos dois anos, duras derrotas, tanto eleitorais, quanto legislativas, apresentando, mais explicitamente, uma falência do modelo de ação política empregados. Dessa forma, as críticas aqui apresentadas podem se constituir em oportunidade de reflexão, criando condições para que o PDT, ao qual o momento apresenta importante oportunidade, não trilhe o mesmo caminho e cometa os mesmos erros, especialmente quando pretendemos disputar a Presidência da República.

O não muito sólido argumento aqui, dado certas limitações científicas impostas, é demonstrar que o PT falhou, não no processo de construção de uma base social, mas na construção de uma base política. Tal partido teve forte entrada nas camadas populares ao ocupar o lugar deixado pelo antigo PTB ao longo do fim da Ditadura e início da Nova República.

Dado que vivemos em um sistema multipartidário, ter maioria legislativa constituída apenas por um partido é muito pouco provável. Logo, todo e qualquer partido com candidatos presidenciáveis deverão construir uma base política no Poder Legislativo para garantir que seu projeto de governo seja aprovado. Sem isso, estão destinados ao fracasso.

Aqui entra o dilema entre cooptação e agregação de lideranças políticas. Agregação deve ser entendida como a incorporação de novas lideranças políticas de forma voluntária e autônoma voltada exclusivamente para o fortalecimento dos ideais representados pelo partido. Cooptação, por outro lado, implica incorporar lideranças somente analisando a utilidade, muitas vezes sem nenhuma compatibilidade ideológica, que de imediato não parece ser tão custoso, mas a longo prazo foi a ruina do PT. São exemplos: teremos um deputado a mais, aumentaremos nossa parte no fundo partidário, tempo na televisão, conquistaremos mais votos para nossos candidatos a governador e presidente.

Poucas pessoas no nosso país estão dispostas a se filiar a um partido e a defender efetivamente um ideal. Veja, por exemplo, a pesquisa de confiança nas instituições desenvolvida pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), em 2015, (veja o Gráfico 1 ao final) onde quanto mais próximo de 100, mais confiável é uma instituição. Os partidos políticos aparecem em último lugar no ranking, apresentando tendência ainda pior ao longo dos anos, já que, em 2014, o índice era de 30 pontos.

A situação fica ainda mais crítica quando analisada a percepção dos eleitores quanto à representatividade dos partidos, como apresenta a pesquisa dos Estudos Eleitorais Brasileiros (ESEB), de 2014. Apenas 26% dos eleitores acreditam haver algum partido que represente o que pensam, enquanto pouco mais de 30% se identificam com algum partido. Portanto, lidamos com uma maioria de eleitores desacreditados nos partidos políticos e com um sentimento de que nenhum deles o representa. A grande questão que nos é imposta é a seguinte: como criar adesão e apoio popular ao partido, construir lideranças locais e lideranças parlamentares com forte vínculo com o partido?

Olhando para a evolução do número de deputados de alguns partidos (Gráfico 2), é visível um significativo aumento da bancada dos partidos que elegeram presidentes da república, quais sejam, o PSDB, em 1998, e o PT, em 2002. Visível também é a redução da bancada destes partidos ao longo do tempo. O que pode explicar isso? Candidatos à presidência que têm chances de serem eleitos atraem candidatos a deputados estaduais e federais ao seu partido, mesmo sem compatibilidade ideológica, pois sabem que, com o apoio de um possível presidente, terão mais chances de vencer e mais acesso ao poder.

O custo posterior para o presidente manter sua base no Poder Legislativo é crescente, visto que vários deputados “virarão as costas” ao partido por não ter seus pedidos aceitos, mesmo que estes contrariem o programa do partido. O resultado é, portanto, a redução posterior da bancada. O presidente que possuiu um mal desempenho ou se tornou impopular tende igualmente a reduzir a bancada, pois os deputados incorporados ao partido, mas sem identidade com este, fugirão para outros partidos em que a reeleição é mais promissora.

Outra pergunta inquietante é a seguinte: por que o PDT, apesar da tentativa de aumentar sua base, especialmente lideranças locais, ao invés de crescer ao longo dos anos no número de deputados eleitos, decresce? Acredito que o partido enfrente um problema crítico, tanto quanto os grandes partidos, de selecionar quem entra, visando não apenas objetivos de curto prazo, mas também de longo prazo. Isso resulta na constante expulsão e/ou migração de deputados (Gráfico 3).

Nos anos de 2006 e 2010, a mesma pesquisa ESEB mostrou um crescimento da identidade partidária, passando de 40% para 58% os eleitores que acreditavam que algum partido os representava. A situação em 2014 retrai a identidade partidária, já entrando na crise política que vivemos hoje. Daqueles quase 60% que acreditavam em algum partido em 2010, a distribuição da identificação se dava da seguinte forma:

Como exposto pelo gráfico (Gráfico 4), o PDT não desfruta de quase nenhuma identidade partidária dentre os partidos que ainda a mantinham em 2010. Por outro lado, ao menos 60% possuíam identidade com o PT.

Se, como as probabilidades indicam, o PDT não irá conseguir eleger um número grande de deputados que possuem fortes vínculos ao partido e à sua ideologia, este será obrigado a negociar apoio para a campanha presidencial e formar uma coalizão. Não quero aqui discutir os perigos no processo de formação de coalizões, mas enfatizar o risco de simplesmente afiliar potenciais deputados sem identidade e compromisso com o partido. Porém, uma vez que filiar potenciais deputados irá acontecer de qualquer maneira, mas deve-se refletir sobre como isso deveria ser feito. Apresento algumas sugestões que podem reduzir os custos de manutenção de uma base no Poder Legislativo Federal, caso venhamos, e assim esperamos, ter um presidente pedetista:

a)      É fundamental filiar potenciais deputados ao partido. Contudo, deve-se dar preferência aqueles com afinidade ideológica, especialmente os que estarão dispostos a defender o programa do partido mesmo em contextos adversos. Quanto maior for o número de parlamentares eleitos fortemente identificados com o partido, menor o custo de manutenção da coalizão;

b)      É fundamental filiar, quando ausente a condição anterior, potenciais deputados e lideranças fortemente identificados com a democracia, ética e legalidade. Essas características, por sinal, são raras nos parlamentares brasileiros. A alternativa não evita o custo de manutenção de uma coalizão, mas reduz a probabilidade de denúncias de corrupção capazes de minar, como temos visto, qualquer partido.

Filiar para simplesmente ter um maior número de deputados, levará inevitavelmente ao mesmo fim do PT e do PSDB. Diante disso, coloco as seguintes perguntas: o que queremos para o futuro? Estamos sendo bem sucedidos na agregação de lideranças? Quão dispostos a negociar o programa do partido com outros partidos e membros com vinculo frágil estamos? Continuaremos a manter a mentalidade de uma esquerda fechada, simplesmente filiando e expulsando lideranças ou seremos mais proativos em criar e incentivar as lideranças que se identificam com o partido? As respostas encontraremos no curso de ação que tomarmos a partir de agora.

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Lucas Henrique Ribeiro

Graduado em Gestão Pública pela UFMG. Possui experiência na área de Ciências Políticas com ênfase em Comportamento Político.

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