21 JUN 18

“Ciro Gomes e sua luta contra a (des)razão”, por André Luan Macedo

Ciro Gomes e sua luta contra a (des)razão tupiniquim: o mito do homem cordial

*André Luan Nunes Macedo 

Há, aproximadamente, quatro anos e meio atrás participava de uma mesa, em Recife, promovida pelo Partido Comunista Revolucionário em defesa da Revolução Cubana. Na época, fui convidado para fazer essa mesa representando minha antiga organização política, as Brigadas Populares. Lá estava Anacleto Julião, que fora presidente nacional da Juventude Socialista do PDT no início dos anos 80. Anacleto foi um dos “filhos do exílio” da ditadura militar e viveu parte da sua infância em Cuba. Segundo essa importante figura, havia uma conexão subjetiva entre o povo cubano e o povo nordestino, cuja simbologia pautava-se na garra e na firmeza das palavras ditas.

Sua declaração me fez refletir sobre a minha “terra natal materna”, meus primos e demais familiares: Araripe, cidadezinha que fica no topo da Serra do Araripe. Seca que só o diabo e, de todas as cidades da região do Cariri, uma das mais bem organizadas. Cidade de um povo que fala alto, de gente brava. Que mata um leão por dia para colocar a comida e água na mesa, diante da ausência de um Estado protetor e proativo. A realidade por aqueles cantos não é nenhum pouco cordial com esse povo.

Sempre que posso visito a cidade. Estive por lá no final do ano passado para o casamento do meu primo Hiarlley. Um típico casamento sertanejo, num sítio distante da cidade. Ouvi reclamações da minha querida Tia Clô – professora da Rede Básica no município – que há tempos não ouvia: a escassez de água, a falta de energia. A boa e velha seca voltou com força. Nem as cisternas feitas pelo Ministério da Integração Nacional sob o comando de Ciro Gomes deram conta de reservar água da chuva. O semi-árido nordestino vive nos últimos quatro anos uma das piores secas dos últimos vinte.

A vida no Cariri não requer mansidão. Não requer “jeitinho” e sequer existe espaço para muita “malandragem”. O jeito é trabalhar e produzir com o que tem. O empreendedor depende de subsídios estatais para fazer sua produção circular, seja na construção de malhas asfálticas, seja na cooperação competitiva de compras de produtos, tendo o Estado como importante mediador nas relações econômicas. Não fosse isso, talvez a região já tivesse entrado em estado de calamidade pública.  Como ser manso diante dessa situação?

A pedagogia política do Sul, em especial a da minha “terra natal paterna”, Minas Gerais, é oposta à cultura política do sertanejo cearense. Ela vê a crítica e a firmeza como destempero. Assiste a falta de respeito a um palestrante em suas terras, principalmente se for um nordestino, como algo normal. E reage com truculência quando o mesmo se sente desrespeitado quando é chamado por um pequeno número de boçais como “cangaceiro” ou “coronel”.

Os comentaristas da política logo corroboram com a narrativa midiática, dizendo que Ciro Gomes fez um “gol contra” ao sair da palestra da Associação Mineira de Municípios. O conteúdo político é o mesmo: um destemperado e descontrolado. São aqueles que adoram corroborar com o mito do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda, mito esse propagado em alto e bom som por jornalistas, marqueteiros e cientistas políticos. Afinal, um candidato a presidente do Brasil tem que ser um “conciliador” – leia-se: deve possuir fala mansa, dizer o que “o mercado quer ouvir” – leia-se mais uma vez: o que uma fração do baronato financeiro especulativo espera de um governante ligado a seus interesses.

Ciro Gomes é a antítese do homem cordial. Ao se declarar como um homem avesso aos salões e aos conchavos escusos dos bastidores de Brasília, logo é estigmatizado por essa fração financeira, que não trabalha, só engorda e sequer se preocupa em produzir algo para a nação. Seu interesse é a rapinagem. A venda do Pré-Sal e a privatização da Petrobras. Tudo isso, é claro, em perfeita sintonia com os nossos amiguinhos da AmeriKKKa, que adora guardar bebê latino-americano em suas gaiolas.

Ciro fala o que o povo brasileiro espera de seu governante: franqueza e sinceridade. Algo comum no cotidiano, seja no Ceará ou em Minas. Ciro combate a “corrupção real” do sistema financeiro. Ele é o desespero dos jornalões, patrocinados por esse sistema. Hoje esses jornalões se comportam como a “Frente Ampla” deste “baronato”. Ciro Gomes tem sua sociologia política calcada na linguagem do povo, algo que também incomoda. Afinal, a linguagem dos salões é a do Armínio Fraga e seu “inflation target” sacrossanto.

Se Ciro Gomes conquistar a presidência da república, vence a política como linguagem. Morre o marketing e o óleo de peroba. Se Ciro Gomes conseguir atravessar o rio turvo, cheio de jacarés e seus bois-de-piranha do mercado financeiro e atingir a boa e provável proeza de ser presidente, se comportará como Estadista. Morre assim o Estado desnecessário e Entreguista do consórcio golpista de Michel Temer. Vence o Estado Protetor das Maiorias. Vence quem teve tudo pra ser o Senhor do Baronato no anos 90, quando ainda no PSDB, o “menino prodígio” da política, e que, agora, ao ter vivido traição após traição, se vincula à firmeza do povo e seus reais interÉsses. Morre, portanto, o Mito do Homem Cordial. Vence a candidatura de um estadista que já disse ter somente um senhor: o povo brasileiro.

E vejam bem, a morte do Homem Cordial não significa a morte da conciliação. Como diria um araripense famoso, Miguel Arraes, até para conciliar é preciso força. A força do povo brasileiro está na mediação dos interesses entre quem trabalha e produz. O mercado entraria como mais um agente de negociação em um governo Ciro. No entanto, deixaria de ser O agente para se tornar UM agente. Nem melhor nem pior que ninguém, nem acima dos interesses de quem quer que seja. Se seu Projeto Nacional de Desenvolvimento for adiante, “irá colocar o povo na jogada” por meio de Plebiscitos e Referendos. Criam-se, assim, novas mediações de participação popular, fazendo com que o Congresso Nacional se posicione com mais qualidade. E deixe de ser um escravo de lobistas e interesses escusos.

Ciro Gomes representa o que há de mais autêntico da Razão Tupiniquim. É bem humorado, faz piada. É sarcástico. Se comunica por metáforas. A melhor de todas é a do Tatu no Toco, síntese maior da práxis política dos barões do sistema financeiro que operam em conluio com parte da elite política brasileira, em nome dos juros altos e do pagamento perverso de uma dívida pública galopante. A oposição a isso é a sisudez paulistocêntrica de Geraldo Alckmin e sua calvície banhada em gel. O tucano-Chuchu, sem graça, sem gosto, mero mediador dos grandes interÉsses internacionais. Ou seja, um Tatu no toco.

André Luan Nunes Macedo é doutorando em História pela Universidade Federal de Ouro Preto e membro da Executiva Estadual da Juventude Socialista.

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Bruno Ribeiro

Secretário Nacional de Comunicação da FLB-AP.

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