22 FEB 19

“Trabalhismo em Diálogo” discute os 25 anos do direito de resposta de Brizola na Globo

Debate foi realizado na sede da Fundação no Centro do Rio

Por Fabio Pequeno

Em 15 de abril de 1994, o Jornal Nacional, da TV Globo, cumprindo ação judicial, leu o texto do direito de resposta do então governador do Rio de Janeiro, Leonel de Moura Brizola. Passados 25 anos desta vitória para os trabalhistas na Justiça, a Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini do Rio de Janeiro iniciou, na última quinta-feira (21), seu ciclo de debates de 2019 com o tema “25 anos do Direito de Resposta e Reforma da Mídia”.

O evento foi realizado na sede da Fundação, na Praça Tiradentes, e teve como debatedores os jornalistas Fernando Brito, Osvaldo Maneschy – Secretário e Assessor de Imprensa do Governo do Estado, na época – e Miguel do Rosário do site político O cafezinho. O debate foi mediado por Everton Gomes, vice-presidente estadual da FLB-AP e Fernando Mendonça, da página Cirão Carioca, no Facebook.

Roberto Marinho sempre perseguiu, através de seus veículos de comunicação, qualquer político que não se alinhasse aos seus interesses pessoais. Felizmente, para o povo brasileiro, Brizola, em toda sua vida jamais cedeu a qualquer tipo de pressão de corporações”, contextualizou Maneschy, no início de sua fala.

“A primeira vez que a TV Globo operou contra Brizola foi no caso Proconsult [tentativa de fraude nas eleições de 1982 para impossibilitar a vitória de Leonel Brizola, de modo a favorecer Moreira Franco, candidato apoiado pelo regime militar]. Depois que Brizola chamou os jornalistas da imprensa estrangeira e denunciou o fato, tiveram que aturar Brizola governador. Aí, Marinho deflagrou guerra sem trégua contra nosso líder”, explica.

“Não foi milagre Brizola ter saído do nada na primeira pesquisa deintenção de votos para Governador e ter ganhado a eleição; mas, sim,o exercício prático de priorizar a comunicação e não ceder jamais. Brizola era de fácil entendimento, gostava de falar e tinha uma visão além do seu tempo. Em seus discursos, passava para o povão a sua obstinação em defender o certo. Brizola era incorruptível – e isso os Marinho não podiam admitir. Assim, declaram guerra através de seus editoriais”, conclui.

Fernando Brito, editor do blog político “Tijolaço”, dedicou seu tempo mais especificamente a contar toda a história sobre o episódio do “Direito de Resposta”, que provocou uma sensação de contentamento dos pedetistas, depois de assistirem, anos a fio, ao líder Leonel Brizolasendo difamado constantemente em reportagens cruzadas (jornal, TV e rádio).

“Assistir ao Cid Moreira ler o direito de resposta no horário nobre foi uma das melhores sensações da minha vida. O telejornal porta-voz da ditadura foi obrigado a ceder o espaço para aquele seu chefe tinha nomeado inimigo público número um. Quando soubemos que iria ser lido, não sabíamos o que fazer: era uma loucura. Para ter ideia, não tínhamos nem como gravar”, disse.

Brito contou que o episódio teve início três anos antes, em 1991, com um editorial no jornal O Globo, que atacou pessoalmente Brizola; que foi lido no Jornal Nacional.

“Quando solicitamos o direito de resposta, era necessário, no ato, anexar o texto a ser lido. Então, no nosso entendimento, não poderia ser ofensivo para não dar a oportunidade de também solicitarem uma resposta. Olhando para trás, a dimensão que este fato alcançou é incrível: virou um marco na história: hoje é debatido nas faculdades”. E conclui: “conseguimos impactar, dizendo tudo que estava engasgado, sem ofender somente com arte das palavras.

Miguel do Rosário, jornalista da primeira geração da internet, disse que o episódio é um exemplo a ser seguido pelos profissionais que se dedicam a combater o que ele define por jornalismo hegemônicopatrocinado por grupos financeiros, que tende a influenciar a opinião pública seus interesses e apontou os erros que a esquerda progressista insiste em cometer na comunicação.

“Se analisarmos o caso direito de respostas, vamos entender como a comunicação da esquerda deve ser feita. Hoje, nos deparamos com diversos setores se comunicando de forma ineficiente. Um bom exemplo são os sindicatos: os quadros que comandam a comunicação não têm qualquer tipo de estratégia. Estão mais preocupados na qualidade do jornal. São jornais feitos em papel couchê! Enquanto cada um ficar na sua bolha, nós seremos derrotados”.

Miguel foi enfático ao dizer que caso não exista uma nova estratégia da esquerda progressista, a tendência são mais derrotas:

“Em 2015, uma presidente legitimamente eleita foi retirada do poder, graças a uma forte campanha midiática que ganhou a mente da população. Em 2018, um candidato da ultradireita chegou à presidência da república também com a mesma estratégia. Se nós, verdadeiramente, não mudarmos o nosso jeito de nos comunicar vamos perder novamente”.

Ao final, Everton Gomes agradeceu aos convidados e formalizou um convite, em nome da Fundação, para que este tema seja levado para além dos “muros do partido”.

Em nome da FLB-AP Rio de Janeiro, quero agradecer os esclarecimentos e análise do momento que foi o direito de resposta e suas consequências para a comunicação política. Quero, também, já iniciando a mudança na forma com que a nossa Fundação faz sua comunicação, fazer um convite formal a vocês para que possamos levar esta história e seus desdobramentos, tão necessários, para outros locais”, concluiu.

O convite foi aceito por todos. A Fundação em seus canais oficiais vai informar quando e aonde será a próxima edição.

A resposta pedetista 

A TV Globo foi condenada a ler, no Jornal Nacional, texto de Leonel Brizola, em resposta a matéria tendenciosa.

O processo:
1) Em 6 de fevereiro de 1992, o governador Brizola publica um tijolaço em que reproduz uma carta enviada ao prefeito Marcello Alencar (PDT), na qual transmite seu inconformismo com a veiculação, pela TV Globo, de dois programas nacionais. 

Ambos focalizando, de forma parcial e tendenciosa, a questão dos meninos de rua, açulando os matadores e, sobretudo, destruindo a imagem do Rio de Janeiro. Nas duas oportunidades, o Rio foi apresentado como se fora tão somente um covil de menores assaltantes, indignos de receber um turista sequer.

Em defesa do Rio

Enviei, ontem, ao companheiro Prefeito Marcello Alencar a seguinte carta, que transcrevo a seguir:

Assisti, com grande amargura e revolta, a dois programas elaborados e transmitidos, recentemente, pela Globo em rede para todo o País. Um deles, no domingo à noite, e outro, na última terça-feira, no Jornal Nacional. Ambos focalizando, de forma parcial e tendenciosa, a questão dos meninos de rua, açulando os matadores e, sobretudo, destruindo a imagem do Rio de Janeiro. Nas duas oportunidades, o Rio foi apresentado como se fora tão somente um covil de menores assaltantes, indignos de receber um turista sequer.

Será que, em função de seus ódios, o Sr. Roberto Marinho e seu império não veem que estão destruindo, de vez, a imagem do Rio de Janeiro? Será que não se dão conta do mal que estão fazendo? Estou convencido de que toda essa onda internacional contra o Rio vem de matérias infames como essas que as Organizações Globo produzem e divulgam.

Cometem esse crime e, depois, querem aproveitar-se, ganhar dinheiro e prestígio à custa do Rio, como é o caso da transmissão do carnaval. Não sei se seria cabível, a esta altura, aplicar uma punição à Globo, como seja a de cancelar o seu privilégio de transmitir o carnaval, a partir da Passarela, que ela própria combateu e procurou desmoralizar.

Com a certeza de que esta mensagem será recebida e considerada com a maior atenção por parte do prezado companheiro e amigo, saúdo-o, invocando o nosso compromisso, ainda ontem e hoje reafirmado entre nós.

Em defesa do Rio, em defesa de nossas crianças,

Solidariamente,

(ass.) Leonel Brizola.

2) Em seu Jornal Nacional, a TV Globo veicula matéria altamente depreciativa ao governador Leonel Brizola e ao Governo do Estado do Rio de Janeiro.

3) Tijolaço 32 (8-2-1992) – O Governador Brizola divulga que requereu direito de resposta, em razão de matéria ofensiva da Globo, em represália à sua carta ao prefeito Marcello Alencar:

Direito de resposta – Estou exigindo, com base na Constituição e na legislação em vigor, direito de resposta no Jornal Nacional, da Rede Globo. O que solicitei ao Prefeito Marcello Alencar foi uma penalidade à Globo, sem prejuízo de representar contra o seu comportamento lesivo à imagem do Rio. Nada tem a ver com a liberdade de Imprensa. Carnaval, para a Globo, é apenas um negócio, e negócio grosso. Bilhões e bilhões, contratados diretamente com os patronos da Liga, cujas atividades são notoriamente conhecidas. É só isso, nada mais. As pesquisas que divulgou não têm valor. Foram feitas por ela própria. Andam por aí com câmeras, gravadores e microfones, com perguntas em causa própria. Agora já se sabe que até crianças que apareceram no Fantástico foram utilizadas em troca de migalhas de dinheiro.

4) Tijolaço 81 (20-12-1992) – Informa que o Tribunal de Alçada Criminal, por unanimidade, confirmou sentença do juiz da primeira instância, a fazer a leitura, no Jornal Nacional, do direito de resposta:

Condenação – O Tribunal de Alçada Criminal, por unanimidade, acaba de condenar, confirmando sentença do juiz da primeira instância, a fazer a leitura, no Jornal Nacional, de meu direito de resposta, de uma página e meia, às ofensas que me dirigiu. A esta altura, ainda, não sabemos se a sentença foi cumprida, dentro das 24 horas de prazo a que estava obrigado, ou se conseguiu, em Brasília, protelar o cumprimento da decisão da Justiça. Seja como for, a condenação já é um fato: são duas sentenças que não deixam dúvida alguma sobre a natureza da conduta moral da máquina Globo.

5) Tijolaço 145 (20-3-1994 – Brizola reproduz a íntegra do direito de resposta, lido no Jornal Nacional, em 15 de março de 1994:

Direito de resposta

Atendendo a inúmeras solicitações, vindas de toda a parte do País, reproduzo, abaixo, o texto que a TV Globo teve de reproduzir, no último dia 15, no Jornal Nacional, por decisão judicial, que me assegurou a garantia constitucional do direito de resposta às agressões veiculadas por aquela emissora, em fevereiro de 1992. Eis a íntegra do texto:

“Todo sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui, citam o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado perante o povo brasileiro. Ontem, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar o editorial de O Globo, fui acusado na minha honra e, pior, chamado de senil.

Tenho 70 anos, 16 a menos que o meu difamador, Roberto Marinho. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que use para si. Não reconheço na Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e, basta, para isso, olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura que por 20 anos dominou o nosso País. Todos sabem que critico, há muito tempo, a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou ontem, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípio. É apenas o temor de perder negócio bilionário que para ela representa a transmissão do carnaval. Dinheiro, acima de tudo.

Em 83, quando construí a Passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar, de todas as forma, o ponto alto do carnaval carioca. Também aí, não tem autoridade moral para questionar-me. E mais: reagi contra a Globo em defesa do Estado e do povo do Rio de Janeiro que, por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior. E isto é o que não perdoarão nunca.

Até mesmo a pesquisa mostrada ontem revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado. Ninguém questiona o direito de a Globo mostrar os problemas da cidade. Seria, antes, um dever para qualquer órgão de imprensa. Dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção.

Quando ela diz que denuncia os maus administradores, deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante de seu poder. Se eu tivesse pretensões eleitoreiras de que tentam me acusar não estaria, aqui, lutando contra um gigante como a Rede Globo. Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado.

Quando me insultam por minhas relações administrativas com o Governo Federal, ao qual faço oposição política, a Globo vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível. Quem sempre viveu de concessões e favores do poder público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesmo. Que o povo brasileiro faça seu julgamento, e, na sua consciência lúcida e honrada, separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis e gananciosos”.

Galeria de fotos

flbap-admin

Sem descrição sobre o Autor

COMENTÁRIOS